
Tanto Tempo
Tanto Tempo
Mara Coradello
Lamartine Neto se interessa pelo tempo e por uma forma de celebrá-lo: com uma moda que nos transporta à intimidade que tanto serve para atenuar a passagem desse mesmo tempo, como para marcar a autenticidade de quem a veste.
Podemos pensar em algo que não seja permeado pelo tempo? Uma canção de Aprígio Lyrio, uma t-shirt, um peixe num rio, a madeira, um giroscópio, uma maquiagem num rosto. Tudo contém e é contido pelo tempo.
Ou como diria Nietzsche/Zaratustra: o tempo é um anel perfeito. Sem inicio nem fim, é uma estrada que só pode ser conhecida no portal do instante.
Por isso as peças dessa proposta de coleção são de um cinza instigante: o cinza é o intermediário, o que vai ser e o que já foi, entre os definitivos preto e branco está o cinza. O cinza é o que está consolidado e o que está por vir.
Dividida em três blocos de modelagem, as peças têm uma narrativa coesa como a aparente linearidade do tempo: manhã, tarde, noite.
Os blocos de modelagem são:
1) Camisaria masculina;
2) Recortes retos de seda pura;
3) Aplicações de dourado e prata numa mistura de cinza com o bege.
Os tecidos também estão no intermediário entre o tecnológico e o orgânico, cheios de pulsão para tornar a chamada “roupa com pensamento” de Lamartine Neto impecável, com extremado cuidado nos acabamentos, com interiores de luxo, com exteriores inusitados na medida certa, na medida de nosso tempo.
Nas costas vemos recortes, vemos no outro, porque quem veste não os vê, uma clara alusão ao tempo que passou.
E o mais curioso é que essa mulher e esse homem que estão de cinza e bege, são felizes e sensuais. Afinal, quem disse que felicidade é euforia? A verdadeira felicidade que Lamartine pretende expressar na coleção Tanto Tempo é a serenidade. Mas o estilista é generoso com todas as cores, presentes nos acessórios, criações do coletivo Ilhados do qual ele faz parte e é fundador.
Que venha Tanto Tempo e que nos encante ao falar do que precisamos nestes tempos: de intimidade, afeto, como nas mangas compridas para noites frescas de verão. Afinal, até mesmo a definição de moda, para muitos, é o reflexo do tempo, do l´espirit du temps.
